A História

A trajetória da Mafalda engloba o período que vai de 1964 a 1973, através de três publicações: “Primera Plana”, “El Mundo” e “Siete Días Ilustrados”. Muito antes da despedida oficial da tira, em junho de 1973, Quino, e ninguém além dele, já tinha percebido que o repertório tinha se esgotado e que não podia insistir sem se repetir.

Ao contrário de outros colegas seus, como Schulz (criador de Snoopy), que fizeram com que os próprios quadrinhos perdurassem graças ao apoio de uma equipe de cartunistas e desenhistas, Quino nunca quis perder o contato direto com a própria criação. Nunca quis adotar tal método de trabalho porque não o considerava adequado ao seu estilo, assim como nunca utilizou um mecanismo particular de trabalho. Antes que qualquer outra pessoa pudesse perceber, Quino soube que a Mafalda tinha cumprido a sua missão.

Os dez livros publicados sobre a Mafalda não abrangem completamente todas as experiências do personagem que Umberto Eco definiu como uma “heroína iracunda que rejeita o mundo assim como ele é [...] reivindicando o seu direito de continuar sendo uma menina que não quer se responsabilizar por um universo adulterado pelos pais”.

“Eu sou um famoso cirugião. Topa? Abrimos a boneca e vemos do que é que ela está cheia. Mmmhhhh? “Não!!!!! Eu sei do que é que ela está cheia!” “De pano?” “Não!” “De serragem?” “Não!” “De borracha?” “Não!” “De algodão?” “Nãããão!” “Do que, então?” “De inibições!”

Quino recebeu uma ligação de Joan Manuel Serrat que lhe pedia algo para o seu disco “El Sur también existe”, com poemas musicados de Mario Benedetti, e entendeu que o que Serrat queria era uma tira para pôr dentro do disco como um encarte. Eis a razão do seu formato quadrado. Mas o disco já tinha sido lançado e a tira nunca foi distribuída com ele. “Foi o resultado de um mal-entendido entre um catalão e um andaluz” explica Quino, referindo-se à própria origem.

“Prendi um demônio verde, com chifres amarelos e rabo roxo. Em que mão está?” “Na esquerda!” “Esse vai ser um segredo entre a gente, né pai? Te amo muito para sair dizendo por aí que você acredita em qualquer coisa!”

O humorista e escritor Miguel Brascó define como uma estória curiosa a sua participação no nascimento da Mafalda. Amigo pessoal de Quino, desde 1962 compartilhavam páginas das revistas “Tía Vicenta”, dirigida por Landrú, e “Cuatro Patas”, uma criação de Carlos del Peral que, apesar da distribuição limitada e da breve duração, representou também um modelo humorístico da época. “Quino tinha me comentado que estava com vontade de desenhar uma história em quadrinhos para crianças”, relembra Brascó. “Um dia, me ligam da Agens Publicidad e me pedem um desenhista capaz de criar uma tira cômica com uma publicidade subliminar que seria publicada em algum meio, para promover os eletrodomésticos Mansfield, produzidos por Siam Di Tella”.

“A pessoa que falou comigo se chamava Briski e eu me lembro disso porque o nome me fez vir à mente uma mistura entre Brascó e Oski”. Brascó então fala com Quino – “Quinoto”, como o chamava carinhosamente, “para mim, voce é a pessoa certa” e lhe sugere que imagine uma estorinha que misture Snoopy e Blondie. Para Brascó, Quino era e continua sendo não só um grande desenhista, mas principalmente um grande argumentador”.

O autor esboça então uma família-tipo, na qual já é possível reconhecer a Mafalda e os seus pais, mas respeitando uma das regras fundamentais da agência: que o nome de todos os personagens comece com “M”. Quino lembra que no filme “Dar las caras”, baseado no livro de David Viñas, se falava de um bebê chamado Mafalda, o nome parece alegre e ele o adota para a sua protagonista. Só depois é que ele vai ficar sabendo da trágica história da Princesa Mafalda de Savóia, filha do rei da Itália, Vittorio Emanuele III, que passou os seus últimos dias no campo de concentração de Buchenwald. Agens decide passar a tira ao “Clarín” em troca do espaço grátis. Mas o jornal percebe que por trás dos quadrinhos tem uma publicidade e rompe o acordo. A campanha não é levada a cabo e os produtos Mansfield, por outros motivos, nunca chegam a entrar no mercado.

Miguel Brascó fica sabendo que o negócio não tinha dado certo quando o Quino leva as falidas tiras a “Gregorio”, o suplemento fixo de humor da revista “Leoplán”, criado e dirigido por Brascó, e com o qual coolaboram nomes conhecidos como Rodolfo Walsh, Carlos del Peral, Kalondi e Copi. Impressionado com a homenagem a “Periquita”, que ele crê entrever no desenho da Mafalda, Brascó publica três das tiras. Eis a primeira parte do nascimento da Mafalda, o que prova até que ponto o seu autor nunca se considerou um crítico do mundo e muito menos teve expectativas de transformá-lo porque, segundo as suas próprias palavras, não crê que “o humor transforme nada”.

“Você é um bom pai?” “Eh... acho que sim.” “Mas você é o pai mais, mais, mais bonzinho de todos todos os pais do mundo?” “Bom... não sei. Talvez haja outro pai mais bonzinho do que eu.” “Eu sabia!”

O fracasso da campanha Mansfield e a grande amizade que unia Quino a Julián Delgado, chefe de redação da revista “Primera Plana”, desaparecido quando era diretor de “Mercado”, foram determinantes para que Mafalda se formalizzasse definitivamente como uma tira. Delgado tem o pressentimento que poderá ser um sucesso entre os leitores de “Primera Plana”. Conversa com Quino e este passa a fazer parte da publicação. Mafalda estréia oficialmente como tira no dia 29 de setembro de 1964 em “Primera Plana”, onde é publicada até o dia 9 de marzo de 1965. Durante esse período, Quino produziu 48 tiras com um ritmo de duas por semana.

Nesta etapa só ficarão, do esboço original, a Mafalda e os pais, até que no dia 19 de janeiro de 1965 aparece por primeira vez Felipe. Temos que procurar a fonte inspiradora deste personagem em outro grande amigo do autor, Jorge Timossim, que além das suas grandes qualidades espirituais contava com dois engraçados dentes de coelhinho. Timossi é um jornalista argentino que se mudou para Cuba há muitos anos e que participou na fundação da agência de notícias “Prensa Latina”. Parecia que a Mafalda fizesse parte definitivamente da “Primera Plana”, quando em março de 1965 um jornal do interior solicita a tira para publicá-la. Quando Quino tenta retirar os originais para começar a enviá-los, descobre que a revista semanal considerava as tiras publicadas uma propriedade sua. “Fui ao arquivo e consegui que me dessem as tiras”, lembra. Esse fato representou o fim da sua relação com “Primera Plana” e também uma dolorosa ruptura com Julián Delgado.

“Estas coisas acontecem só neste país!!!”

Como todos os que trabalham em um certo ambiente têm que se adaptar à modalidade jornalística do mesmo e sendo “Primera Plana” uma revista semanal de atualidades nacionais e internacionais, Quino procurou refletir as inquietudes da época. Os referimentos feitos nos quadrinhos à China, à África, à América Latina e à condição da mulher tinham a ver com a idéia que se tinha na época de que o Terceiro Mundo e a mulher conseguiriam finalmente emerger.

“Astuta!” “Essa falta de reação significa que não é... embora soe tanto como um palavrão!...”

Dos jornais que eram publicados naquele momento em Buenos Aires, “El Mundo” era um dos mais populares e independentes. Brascó, que conhecia pessoalmente o seu diretor, Carlos Infante, recomendou-lhe a Mafalda. Começou a ser publicada no dia 15 de março de 1965 até o dia 22 de dezembro de 1967, data em que “El Mundo” fechou definitivamente. “Esse foi o verdadeiro trampolim para o sucesso de Quino” diz Brascó, que interveio para que a tira fosse para frente e que naquele momento, numa viagem a Santa Fé, a recomenda a um amigo Luis Vittori, sub-diretor de “El Litoral”. Mais tarde o jornal “Córdoba”, de Córdoba (Provícia da Argentina), sempre graças a Brascó, começa a publicar a Mafalda, a qual se espalha pelos jornais do interior do país.

Quino passa de “Primera Plana”, que é uma revista semanal, a publicar tiras diárias em um jornal e isso lhe permite mexer com assuntos do último momento. Os problemas, seja domésticos ou políticos, passam a ser refletidos nos jogos e nas relações familiares. A polêmica em relação à perniciosidade ou não da televisão para as crianças estava no auge. Quino, que sempre se recusou a ter uma televisão, não pôde ignorar a questão. Duas semanas depois de ter começado a publicar em “El Mundo”, percebe que precisa de mais personagens para enriquecer as tiras e no dia 29 de março de 1965 aparece Manolito (Manuel Goreiro), inspirado no pai de Julián Delgado, proprietério, em Buenos Aires, de uma padaria que ficava na esquina entre a rua Cochabamba e a rua Defensa, no histórico bairro de San Telmo. No dia 6 de junho estréia Susanita (Susana Beatriz Chirusi) que não é inspirada a nenhuma pessoa conhecida pelo autor. O irmãozinho da Mafalda, um simpático e descarado sobrinho de Quino, não chegou a aparecer porque o repentino encerramento das atividades de “El Mundo” deixou a mãe grávida do Guille.

Após tal acontecimento, durante seis meses, nenhum outro meio se interessou pela Mafalda. No entanto, Quino publicava uma página humorística em “Siete Días Ilustrados”, revista semanal nascida em maio de 1967. Sergio Morero, secretário de redação, e Norberto Firpo, chefe de redação, organizam um complô para que a página humorística seja substituída pelas tiras da Mafalda. “Quino prefere trabalhar com amigos, não que r entregar os desenhos da sua página a um aprendiz porque gosta que olhem imediatamente o seu trabalho”, lembra Morero. Mafalda aparece pela primeira vez em “Siete Días Ilustrados” no dia 2 de junho de 1968, em um apágina que inclui quatro tiras.

Diferentemente do que acontece nos jornais, neste caso, os quadrinhos tinham que ser entregues com quinze dias de antecedência em relação à data de publicação. Esta mudança de modalidade impede que o autor siga tão de perto a atualidade. Quino, para completar a diagramação da página, fazia a vinheta que introduzia a página na última hora, pouco antes de entregá-la. A maior parte destas vinhetas que acompanhavam as tiras de fim-de-ano não foram reproduzidas nos livros. Nesse mesmo período, a Mafalda era publicada na Itália onde, por causa do período de agitação social vigente, aparece com o nome “Mafalda la contestataria”.

Na sua primeira aparição em “Siete Días Ilustrados”, Mafalda envia uma carta-curriculum, escrita por Sergio Morero, ao diretor da revista. Guille já tinha nascido e no dia 15 de fevereiro de 1970 entra nas tiras Libertad. Em maio de 1973 Quino faz com que os personagens comecem a se despedir dos leitores. Isto não aparece nas tiras, mas nas vinhetas que introduzem a página. No dia 25 de junho se despede formalmente. “Quino nunca assina um contrato, para poder ir embora”, explica Sergio Morero.

Depois que a Mafalda se despediu do público em 1973, Quino volta a retomar seus personagens em várias campanhas a favor dos direitos das crianças. Ocasionalmente, ele já tinha feito isso antes, como no caso de “El Mosquito”, publicação interna do Hospital de Niños de Buenos Aires. Em 1976, Ano Internacional da Criança, a UNICEF pede a Quino para fazer um poster que ilustre os 10 principios da Declaração dos Direitos das Crianças. O autor cede os direitos autorais de tal edição à UNICEF.

É prevista para o final de 1989 uma Convenção Internacional dos Direitos das Crianças que pretende que os países reconheçam e lutem pela observância de tais direitos através de medidas legislativas. Até agora esses princípios são só boas intenções que os países não são obrigados a respeitar.

Em 1984, a pedido de uma instituição de ação social, a Liga Argentina para a Saúde Bucal, LASAB, Quino fez com que a Mafalda lavasse publicamente os dentes para que todas as crianças da Argentina o fizessem com ela.

Quando a Mafalda era publicada na revista semanal “Siete Días”, cada edição ocupava uma página que continha quatro tiras e o título, geralmente desenhado por Quino con letras decoradas e cheias de alusões. Junto ao título aparecia um dos personagens, às vezes acompanhado por outro, formulando uma reflexão, pronunciando um jogo de palavras ou um discurso, ou protagonizando uma gag.

Em 1971 já tinha sido acumulado tanto material valioso, com desenhos enriquecidos pelos esboços, sem aquele aspecto esteriotipado das historinhas, que a Ediciones de la Flor montou com eles dois pequenos volumes, “Al fin solos” e “Y digo yo”, que foram publicados na Argentina em novembro de 1971 e na Espanha também. Outro livro do mesmo tipo apareceu em outubro de 1973, com formato maior, entitulado “A donde vamos a parar?”.

Em 1991, depois de um comprido processo, o correio argentino emitiu uma série de oito selos postais dedicada aos mais famosos desenhistas de humor e de histórias em quadrinhos argentinos.

Tradução de Maria Eugenia Verdaguer